Biossensores na arquitetura: como eye tracking, EEG e realidade virtual podem transformar a forma de projetar

A arquitetura sempre esteve ligada à experiência humana. Projetamos espaços para morar, trabalhar, aprender, descansar, circular, conviver e sentir. Mas, durante muito tempo, grande parte das decisões de projeto foi baseada principalmente em repertório profissional, observação e no que os próprios usuários conseguiam verbalizar sobre suas necessidades.
Hoje, com a aproximação entre arquitetura, neurociência e tecnologia, surgem novas ferramentas capazes de ampliar essa compreensão.
Entre elas estão os biossensores, como o eye tracking e o EEG, que permitem observar respostas relacionadas ao olhar, à atenção e à atividade cerebral durante a experiência de um ambiente.
Essas tecnologias ainda não substituem a escuta do usuário ou a sensibilidade do arquiteto. Pelo contrário: elas acrescentam novas camadas de informação ao processo de projeto.
O que são biossensores?

De forma simplificada, biossensores são tecnologias capazes de registrar determinadas respostas fisiológicas do corpo.
Na arquitetura e no design, eles podem ser utilizados para estudar como uma pessoa reage diante de estímulos presentes em um ambiente.
Isso abre uma possibilidade interessante: ir além daquilo que o usuário diz sentir e investigar também respostas que acontecem de forma automática ou que nem sempre são percebidas conscientemente.
Dois exemplos bastante utilizados em pesquisas são o eye tracking e o EEG.
Eye tracking: para onde nossos olhos vão dentro de um espaço?

O eye tracking é uma tecnologia que acompanha o movimento dos olhos.
Com ele, é possível identificar onde uma pessoa direciona o olhar, quais pontos recebem maior atenção, quanto tempo ela permanece observando determinado elemento e qual percurso visual realiza.
Na prática, isso pode ajudar a compreender melhor como um ambiente é visualmente percebido.
Imagine, por exemplo, uma pessoa entrando em um hospital. Ela consegue encontrar facilmente a recepção? Percebe as placas de orientação? Sabe intuitivamente para onde deve seguir?
Ou pense em uma loja: quais produtos chamam primeiro sua atenção? A vitrine conduz o olhar para onde foi planejado? A organização do espaço facilita ou dificulta a leitura visual?
O eye tracking pode contribuir justamente para responder a perguntas como essas.
Na arquitetura e no design, ele pode ser aplicado em estudos sobre sinalização, fachadas, vitrines, layouts, circulação, acessibilidade, organização de mobiliário e diversos outros elementos que influenciam a experiência espacial.
E o EEG?

O EEG, ou eletroencefalograma, registra a atividade elétrica cerebral por meio de sensores posicionados no couro cabeludo.
Dentro de pesquisas relacionadas à arquitetura, ele pode ajudar a investigar respostas ligadas à atenção, ao envolvimento e ao processamento de informações durante a experiência de determinados ambientes.
É importante destacar que o EEG não funciona como uma espécie de “leitor de pensamentos”.
Os dados precisam ser analisados dentro de um contexto e, normalmente, associados a outros métodos de pesquisa, como entrevistas, questionários e observação comportamental.
Ainda assim, sua aplicação abre caminhos muito interessantes para a arquitetura.
Realidade virtual + EEG: experimentar um espaço antes de construí-lo

Uma das possibilidades que considero mais interessantes é a combinação entre realidade virtual e biossensores.
Com a realidade virtual, o usuário pode vivenciar diferentes alternativas de um mesmo projeto antes que a obra exista fisicamente.
Enquanto ele percorre esse ambiente virtual, determinadas respostas podem ser registradas e posteriormente analisadas.
Isso permite comparar diferentes soluções de projeto e investigar como cada escolha interfere na experiência.
Podemos imaginar, por exemplo, testes envolvendo iluminação mais quente ou mais fria, alterações nas cores, maior ou menor presença de elementos naturais, diferentes layouts, mudanças na proporção dos espaços, tipos de materiais ou quantidade de estímulos visuais.
Dessa maneira, o projeto deixa de ser analisado apenas a partir da intenção do arquiteto e passa a incorporar também informações sobre como as pessoas respondem às decisões projetuais.
O que isso tem a ver com neuroarquitetura?
Muito.
A neuroarquitetura busca compreender como o ambiente construído influencia nossas percepções, emoções, comportamentos e bem-estar.
Quando dizemos que um ambiente é acolhedor, estimulante, confortável ou relaxante, estamos descrevendo uma experiência humana.
Os biossensores podem acrescentar informações a essa análise.
Em vez de depender exclusivamente de frases como “acho esse ambiente confortável”, podemos investigar o espaço por diferentes perspectivas, combinando aquilo que o usuário relata com observação, comportamento e dados fisiológicos.
Isso pode ser especialmente relevante em espaços onde o bem-estar e a experiência têm grande impacto, como hospitais, escolas, ambientes de trabalho, residências e espaços destinados ao cuidado.
Tecnologia não substitui a sensibilidade do arquiteto
Apesar de todas essas possibilidades, acredito que existe um ponto essencial nessa discussão: dados não projetam sozinhos.
Olhar durante mais tempo para um objeto não significa necessariamente gostar dele.
Da mesma forma, uma alteração na atividade cerebral não deve ser interpretada isoladamente como conforto, desconforto ou preferência.
A experiência humana é complexa.
Por isso, considero mais interessante pensar nos biossensores como ferramentas complementares.
Eles podem trabalhar junto com entrevistas, observação, estudos de comportamento, repertório técnico e, principalmente, a compreensão das necessidades de cada pessoa.
Não se trata de substituir a sensibilidade do arquiteto pela tecnologia.
Trata-se de projetar com mais informação.
Arquitetura cada vez mais centrada nas pessoas

No final, toda essa tecnologia nos leva novamente ao princípio mais importante da arquitetura: as pessoas.
Eye tracking, EEG, realidade virtual e outras ferramentas podem ajudar a entender melhor como alguém percebe, percorre e vivencia um ambiente.
E quanto mais entendemos essas respostas, maiores são as possibilidades de desenvolver projetos mais confortáveis, intuitivos, funcionais e adequados à vida real.
Talvez o futuro da arquitetura não esteja apenas em criar espaços visualmente impressionantes.
Talvez esteja também em conseguir compreender melhor aquilo que não vemos imediatamente: como um ambiente é sentido por quem vive nele.
E é justamente por isso que a neuroarquitetura me interessa tanto.
Ela nos lembra que um projeto não deve ser pensado apenas para ser visto.
Ele precisa ser vivido.
Pensando em construir, reformar ou transformar um ambiente?
Um bom projeto começa entendendo quem vai utilizar aquele espaço, como é sua rotina e quais sensações queremos favorecer no dia a dia.
Se você quer criar um ambiente pensado para as suas necessidades e para o seu bem-estar, fale comigo.





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