Arquiteta Sincera: 3 tendências da arquitetura que eu não gosto

Tendências fazem parte da arquitetura e do design de interiores. Algumas surgem como resposta a novas formas de morar, outras resgatam referências do passado e muitas simplesmente ganham força porque começam a aparecer em todos os lugares.
Pinterest, Instagram, mostras de decoração, lojas de móveis… de repente, determinado elemento está em todo projeto.
E não há necessariamente nada de errado nisso.
Mas seguir uma tendência não deveria ser mais importante do que entender como aquele espaço será percebido e utilizado por quem vive nele.
Então resolvi inaugurar por aqui uma sessão que provavelmente ainda vai render assunto: Arquiteta Sincera.
E começo com três tendências muito presentes atualmente que, particularmente, eu não gosto.
Antes que alguém se ofenda: não significa que sejam erradas.
Arquitetura também envolve preferências pessoais — inclusive as do arquiteto.
Vamos à polêmica.
1. Curvas orgânicas pra todo lado

Sofá curvo. Tapete orgânico. Mesa orgânica. Ilha curva. Parede curva. Porta curva.
Chega.
Não tenho absolutamente nada contra as formas orgânicas. Pelo contrário: quando existe uma intenção no projeto, uma curva pode suavizar o ambiente, orientar um percurso, criar movimento ou se transformar em um ponto interessante na composição.
O problema, para mim, começa quando tudo precisa ter uma curva simplesmente porque as formas orgânicas viraram tendência.
As linhas retas e as formas geométricas continuam tendo seu valor. Elas ajudam a organizar visualmente o espaço, criam ritmo e podem produzir ambientes tão interessantes quanto aqueles dominados pelas formas arredondadas.
E existe ainda uma implicância muito particular minha: sofás extremamente curvos.
Podem ficar lindos em uma fotografia, eu reconheço.
Mas quando olho para alguns deles, minha primeira pergunta é muito menos conceitual:
onde exatamente eu vou me esparramar nesse sofá?
Porque estética importa, mas conforto também.
2. Tudo novo, perfeito e combinando
Essa talvez seja uma tendência menos óbvia.
São aqueles interiores impecáveis em que absolutamente tudo parece ter sido comprado para o projeto.
O sofá é novo. A mesa é nova. Os objetos decorativos são novos. Os quadros foram escolhidos para combinar com a paleta e até os livros parecem ter sido selecionados pela cor da lombada.
O resultado pode ser visualmente perfeito.
Mas, para mim, falta alguma coisa.
Cadê a vida dessa casa?
Cadê a cômoda herdada da avó?
O livro antigo que já passou por três mudanças?
O porta-retrato que talvez nem combine tanto assim com a decoração?
A lembrança comprada naquela viagem?
A peça que tem um pequeno defeito, mas que ninguém pensa em jogar fora porque existe uma história ligada a ela?
Eu gosto de interiores que tenham camadas de tempo.

Uma casa não precisa nascer pronta no dia em que o projeto termina. Na verdade, acho muito mais interessante quando ela continua sendo construída por quem vive ali.
É a mesma lógica que uso quando falo sobre decorar sem transformar a casa em um cenário: objetos pessoais, livros, lembranças e peças que já pertenciam ao morador também fazem parte do projeto.
Quando tudo é excessivamente novo, coordenado e perfeito, existe o risco de o ambiente parecer uma excelente loja de móveis e decoração.
Bonito? Sim.
Mas eu quero olhar para uma casa e perceber quem mora nela.
3. Portas de entrada absurdamente altas

Aqui provavelmente começa a parte mais polêmica.
Portas monumentais de quatro, cinco ou até seis metros de altura aparecem cada vez mais em residências com pé-direito duplo.
Eu entendo perfeitamente a intenção arquitetônica.
Elas criam imponência, enfatizam a verticalidade, acompanham o pé-direito e produzem aquele impacto imediato na fachada.
Mas pessoalmente?
Não gosto.
Em muitos projetos, sinto que a porta perde a relação com a escala humana e passa a existir principalmente para causar impacto.
E arquitetura não precisa ser monumental o tempo inteiro para ser interessante.
Muitas vezes, são justamente as decisões menos chamativas — proporção, iluminação, circulação, materiais e funcionalidade — que determinam se um espaço realmente funciona. É por isso que algumas escolhas precisam ser feitas antes mesmo de a reforma começar.
Proporção, composição, materialidade e bons detalhes conseguem criar uma entrada marcante sem necessariamente transformar a porta em um elemento de vários metros de altura.
E existe também o lado extremamente prático da arquiteta que olha para aquilo e pensa:
quem vai limpar essa porta lá em cima?
Pode não ser a reflexão mais poética da arquitetura, mas alguém precisava fazê-la.
Então essas tendências não deveriam ser usadas?
Claro que não é isso.
Se você ama sofá curvo, sonha com uma casa completamente nova e quer uma porta de entrada de cinco metros, a casa é sua.
Aliás, esse é justamente o ponto mais importante desta conversa.
Um projeto não deveria existir para representar exclusivamente o gosto do arquiteto.
Também não deveria ser uma reprodução automática do que está aparecendo no Instagram, no Pinterest ou nas mostras de decoração.
Tendências podem servir como referência, inspiração e até ajudar a descobrir coisas das quais você gosta.
O problema começa quando elas substituem uma pergunta muito mais importante:
isso faz sentido para quem vai viver aqui?
É justamente esse olhar que procuro levar para os meus projetos e também para a consultoria de arquitetura online, quando o cliente já tem um espaço ou uma ideia, mas precisa de orientação para tomar decisões com mais segurança.
Eu posso não gostar de uma determinada solução e ainda assim reconhecer que ela é perfeita para outra pessoa.
Porque uma boa casa não precisa parecer comigo.
Ela precisa parecer com quem mora nela.
E você?
Já que inauguramos oficialmente a sessão Arquiteta Sincera, agora quero saber:
qual tendência da arquitetura ou da decoração você vê em todo lugar e simplesmente não gosta?
Talvez ela apareça na próxima edição. 👀






Comentários